A cultura do imediato

Por Adhemar Garcia Neto (*)

Executivos e empreendedores

Ao ponderar as virtudes dos profissionais de outras épocas, veteranos executivos tendem a apontar a falta de paciência das novas gerações e as expectativas pouco realistas de progresso nas carreiras executivas, se comparadas ao esforço demandado em sua época avançar às posições onde realmente tiveram influência e capacidade de contribuir para a evolução dos negócios e da sociedade. Ao analisar o momento me pergunto se esta não é precisamente uma virtude aos olhos do novo modelo de liderança, privilegiando aqueles que chegam mais rapidamente ao cada vez mais diminuto espaço no topo da pirâmide organizacional.

Os quadros médios são cada vez mais substituídos por tecnologias de análise e decisão, por mais imprecisas que ainda sejam, como acabam de ilustrar os nervosos movimentos das bolsas de valores mais importantes do globo nos primeiros meses de 2018. Ao longo das últimas duas décadas a crescente associação de tecnologia e predominância dos aspectos financeiros dos negócios, dominados nas grandes corporações por fundos de investimento ou pela expansão internacional dos negócios estratégicos (indústria aeroespacial, energia, infraestrutura e armamentos) das grandes potencias político-econômicas) eliminou grande número de posições gerenciais e vem crescentemente exportando o modelo baseado em agressivas reduções de custo às estruturas periféricas de suas organizações globais. Os processos de construção de valor vêm ocorrendo de fato em meio a enorme diminuição da utilização do potencial de recursos humanos treinados, cada vez mais relegados a posições temporárias ou à condição de “novos empreendedores”.

Desta forma a “baixa resiliência” – para usar expressão tão em voga – poderia ser interpretada como uma reação quase natural às “inovações e disrupções” por atacado com que hoje convivemos e serão parte integrante do “new normal” (desculpem pelo uso excessivo de “buzzwords”, mas o artigo começava a ter uma certa pátina no estilo). Em outras palavras a visão de curto prazo prevalente é uma questão de sobrevivência, sendo a alternativa a construção do negócio próprio, em geral tendo como ponto de partida duas linhas de análise: prestação de serviços e desenvolvimento de ideias em “startups”.

Empreendedores e o eterno retorno

Ao visualizar as alternativas descritas minha percepção e de que vamos encontrar em países periféricos, como por exemplo o Brasil, uma prevalência da busca de solução de curto prazo dos executivos de meia idade marginalizados da vida corporativa (processo acelerado nos últimos quatro anos pela crise local, associada ao fenômeno geral já descrito) na proposição de serviços profissionais ou abertura de negócios de médio ou pequeno porte no comércio. Os mais jovens contemplam mais e mais a possibilidade de escapar às pressões e demandas do mundo corporativo, ao tempo em que satisfazem suas próprias necessidades intelectuais e de crescimento, nos desafios dos negócios próprios, comumente associados a tecnologia da informação. Para isto encontram abrigo nas startups e o desafio do financiamento de suas ideias.

A era do conhecimento proporciona enorme campo para tal tipo de desenvolvimento e ao observar a forma como crescem os “negócios de garagem” encontramos uma lógica que vem se impondo, a concentração de capital é fundamental para a escala e o crescimento e os jovens empreendedores acabam, na maior parte dos casos, quando bem-sucedidos, reproduzindo o modelo corporativo vigente, em escritórios simpáticos de arquitetura aberta e muitos estímulos para que trabalhem cada vez mais com cada vez menos. Certo é que os mais bem-sucedidos se juntarão aos ícones admirados de nossa época e alguns chegarão mesmo a ser incensados pelo valor de sua fortuna estimada (de acordo às variações dos mercados de capitais).

(*) Adhemar Garcia Neto é administrador e sócio da Schroeder Garcia Consulting, especializado em desenvolvimento e reestruturação de negócios na América Latina

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